Numa conversa de café, a propósito de me ter convertido ao acto de regatear e de em Dili se pedir um dolar por qualquer coisa ou qualquer serviço, alguém me disse:
"- aqui tu és um dolar com pernas!".
E a imagética de um dolar com pernas ficou na memória ao ponto de me lembrar da pessoa sempre que alguém me pede um dolar.
Monday, December 3, 2007
Tuesday, November 27, 2007
toranja em Timor
Pois é verdade, estou eu dentro de um taxi a caminho da minha aula de tétum quando ouço uma música dos Toranja. A marginal está cheia de trânsito, um calor infernal mas a música essa leva-me até casa. E com os olhos do taxista postos em mim, através do espelho retrovisor, perco a vergonha e acompanho o vocalista enquanto olho Ataúro ao longe.
Monday, November 26, 2007
casablanca
Enquanto falava com José e lhe relatava o ambiente do hotel timor, ele com a sua imensa imaginação para a escrita literária me dizia: "isso parece-me o ambiente de um hotel em casablanca durante a segunda guerra mundial, com espiões e tudo...". e de facto, mesmo o aspecto meio decandente do edifício, as ventoinhas sempre girando no teto, as pessoas que entram e saiem, os olhares prescrutadores e as conversas sobre a situação política deixam no ar a ideia... olho em volta e penso nisso, com aquele sorriso que me é típico quando algo de muito engraçado me passa pela cabeça.
Sunday, November 25, 2007
Ode a Dudi...
...em quem eu (sua amiga pimentinha) tenho já respeito intelectual... pela visão livre de preconceito de olhar o outro e o mundo...e não é por fazer parte de uma minoria (uma pessoa que faz parte de uma minoria pode ser tão ou mais preconceituosa)...é por ser quem é...
Eliza
Caminho acompanhada pela minha professora de tétum (chamar-lhe-ei Eliza –personagem do livro de aprendizagem) por entre ruelas e carreiros estreitos ladeados de kolan (valetas fundas por onde correm águas pluviais e outras) que exalam um cheiro nauseabundo. Eliza vai-me mostrar casas, disse-me conhecer casas para arrendar. Eliza que aparenta ser uma muito jovem adolescente, pelo ar e fisionomia pueril, pela expressão amedrontada no rosto e pelo seu sorriso nervoso cada vez que vai contando algum acontecimento, é mãe de uma bebé de 9 meses. Na verdade Eliza tem 23 anos. Eliza tira da sua carteira duas fotografias e mostra-me orgulhosamente a sua filha. Sempre que estou sem o senhor Francisco e tenho aula, Eliza e eu caminhamos juntas para os nossos destinos. O meu é quase sempre o hotel para consultar o meu e-mail e Eliza vai para a Universidade ou para o seu serviço. E nestas caminhadas vamo-nos conhecendo. Ela faz-me a mesma pergunta muitas vezes: “- senhora tem Tauk (medo)?”
“Lae (não)!” respondo. E prossegue a contar os acontecimentos mais sanguinários que ocorreram nos últimos dias. Depois à medida que passamos em casas ou outros locais fala-me das atrocidades ocorridas durante a ocupação indonésia, de 99 e da crise de 2006. E sinto que isto que me conta é um segredo que não sendo meu me impele a não divulgar. Sinto que todos os relatos que tenho ouvido são um segredo. Mas não o deviam ser. Ela relata-me os factos e termina com um riso fino e esganiçado. E só compreendo esse riso por puro nervosismo, porque em tudo que me conta é impossível vislumbrar qualquer centelha de diversão.
99 foi há oito anos atrás! Há pouco mais de oito anos os timorenses foram torturados e assassinados. Estes são os factos, uma crua e triste realidade para este povo e para a Humanidade, porque a Humanidade não pode fechar os olhos ao assassínio da sua espécie.
E não obstante a violência que sofreram, ou até por causa dela (os psicólogos lá palpitarão), eles próprios lançam mão da violência tão gratuitamente que é quase assustador. O apedrejamento, o desmembramento à catanada e a violência doméstica é praxis. Eu falo com a Eliza sobre o assunto e ela lança o seu riso nervoso. Eliza fala-me da sua filha e das suas rotinas. Eliza é franzina, muito franzina, deixando-nos estupefactos com a imagem da gravidez e da maternidade.
Eliza, como o senhor Francisco, grew on me. Com todas as precauções que uma malae deve tomar quanto a confiar.
Não, eu não tenho medo. De facto não tenho. Penso em tudo que ouço, no que vai acontecendo mas não tenho medo de aqui estar. E quando me sinto mais só ligo a um dos dois amigos que fiz.
Daqui a pouco José vem e eu, entre outras coisas, poder-lhe-ei contar tudo o que ouvi e até também indicar-lhe os locais, como me fizeram. Depois virá o Rui, o Rodolfo e a Lígia e poderei dizer-lhes e mostrar-lhes o mesmo.
José levará com ele tudo que ouviu de mim e do senhor Francisco e quem sabe uns presentes de Natal. Afinal o Natal avizinha-se e eu estarei aqui, longe do bulício das compras natalícias de última hora, dos telefonemas e sms que entopem o telemóvel. Já agora o meu número de telemóvel é o timorense, aquele que vocês já têm.
“Lae (não)!” respondo. E prossegue a contar os acontecimentos mais sanguinários que ocorreram nos últimos dias. Depois à medida que passamos em casas ou outros locais fala-me das atrocidades ocorridas durante a ocupação indonésia, de 99 e da crise de 2006. E sinto que isto que me conta é um segredo que não sendo meu me impele a não divulgar. Sinto que todos os relatos que tenho ouvido são um segredo. Mas não o deviam ser. Ela relata-me os factos e termina com um riso fino e esganiçado. E só compreendo esse riso por puro nervosismo, porque em tudo que me conta é impossível vislumbrar qualquer centelha de diversão.
99 foi há oito anos atrás! Há pouco mais de oito anos os timorenses foram torturados e assassinados. Estes são os factos, uma crua e triste realidade para este povo e para a Humanidade, porque a Humanidade não pode fechar os olhos ao assassínio da sua espécie.
E não obstante a violência que sofreram, ou até por causa dela (os psicólogos lá palpitarão), eles próprios lançam mão da violência tão gratuitamente que é quase assustador. O apedrejamento, o desmembramento à catanada e a violência doméstica é praxis. Eu falo com a Eliza sobre o assunto e ela lança o seu riso nervoso. Eliza fala-me da sua filha e das suas rotinas. Eliza é franzina, muito franzina, deixando-nos estupefactos com a imagem da gravidez e da maternidade.
Eliza, como o senhor Francisco, grew on me. Com todas as precauções que uma malae deve tomar quanto a confiar.
Não, eu não tenho medo. De facto não tenho. Penso em tudo que ouço, no que vai acontecendo mas não tenho medo de aqui estar. E quando me sinto mais só ligo a um dos dois amigos que fiz.
Daqui a pouco José vem e eu, entre outras coisas, poder-lhe-ei contar tudo o que ouvi e até também indicar-lhe os locais, como me fizeram. Depois virá o Rui, o Rodolfo e a Lígia e poderei dizer-lhes e mostrar-lhes o mesmo.
José levará com ele tudo que ouviu de mim e do senhor Francisco e quem sabe uns presentes de Natal. Afinal o Natal avizinha-se e eu estarei aqui, longe do bulício das compras natalícias de última hora, dos telefonemas e sms que entopem o telemóvel. Já agora o meu número de telemóvel é o timorense, aquele que vocês já têm.
Monday, November 19, 2007
fiquei sem o tm...
Amigos meus,
fiquei sem o vil do telemóvel (um pequeno furto, pelo meu desleixo em deixá-lo em cima da mesa do café), pelo que perdi os vossos contactos telefónicos!
Queiram fazer o obséquio de enviarem para o meu email pessoal o vosso número!!
Muito agradecida!
fiquei sem o vil do telemóvel (um pequeno furto, pelo meu desleixo em deixá-lo em cima da mesa do café), pelo que perdi os vossos contactos telefónicos!
Queiram fazer o obséquio de enviarem para o meu email pessoal o vosso número!!
Muito agradecida!
Sunday, November 18, 2007
Domingo, 18 de Novembro...
Hoje a minha mãe tem grande motivo para ficar feliz, fui de novo à missa. Não fui em sacrifício ou obrigação, mas sim com a imensa vontade de estar na casa de Deus e partilhar com a comunidade o ritual dominical. As portas laterais da igreja estão abertas, corre uma brisa, não obstante os diversos leques nas mãos das senhoras, e vê-se as palmeiras a acenar com o vento, canto emocionada e sinto um contentamento que há muito não sentia na casa Deus (como dizem os Cristãos). Tenho uma maior vontade de me aproximar de Deus à medida que aqui passo os meus dias, mas acredito que a muitos outros haverá a vontade de se afastarem . Não se pense que é por estar infeliz, porque eu sinto-me bem aqui. Consigo antever o quanto esta experiência me vai mudar. Algumas pessoas que vão cruzando o meu caminho são de uma riqueza tal que me sinto privilegiada. Só um tolo poderá deixar de viver a diversidade cultural que aqui se faz sentir. Só um tolo poderá menosprezar as experiências de quem aqui habita, seja Timorense ou Malae. Só um tolo poderá ser intolerante, por obvio medo, da diferença.
A semana foi intensa, a todos os níveis, profissional e pessoal. Bom o profissional é obviamente incontável.
Uma portuguesa que conheço, com quem já almocei e até vegetei numa pura tarde de ócio, entre outras pessoas que também estavam presentes, foi apedrejada a caminho de Baucau. O estado de saúde leva a que seja evacuada para Darwin. Este acontecimento não só nos deixa consternados pelo que aconteceu à rapariga mas também nos alerta para o que nos pode acontecer a cada um de nós. A notícia correu que nem rastilho, a informação é supersónica por estas bandas, fruto dum contacto muito próximo entre todas as pessoas/profissionais. O contacto com o g.o.e. e outras forças policiais e militares, que aqui estão em missão, faz com que estejamos sempre informados sobre os incidentes e alertas aos eventuais. Os acontecimentos de 2006 fizeram mossa na estabilização do país e segurança dos malae que são alvo de pedrada. O senhor Francisco (meu motorista, guia e tradutor) sempre alerta vai-me continuamente alertando para os sítios e horas a que posso e não ir e sair. Continua a dizer-me: -“Timor muito complicado!” –“senhora não pode sair a partir das sete” “- senhora não sai..” ! Hoje, sem o senhor Francisco vou até ao hotel para fazer o meu check out e tomar o meu último pequeno almoço de hotel, passo pelo campo de deslocados logo ao lado e lembrando-me do incidente com a rapariga sinto um desconforto. Não é medo, é desconforto porque sei que não há maneira de prever quando podemos ser alvo de uma pedrada, é o momentâneo momento de lucidez que me diz que não estou segura.
Depois temos os final de tarde por entre as montanhas e o mar, com o céu cor de rosa, a natureza animal de uma riqueza singular e o mar com o seu azul esverdeado que nos mostra onde começa e acaba o coral. Raios de sol batem nas montanhas, iluminado uma determinada encosta, enquanto do outro lado é já escuro.
O tempo não passou por aqui, tudo continua quase intacto, o homem vive na sua mais primitiva natureza e o seu dia é dedicado à sua sobrevivência mais básica. Olho para eles com os meus olhos ocidentais cheios de preconceitos relativos ao bem estar e felicidade. Momentaneamente pergunto-me se sou eu que sou feliz ou se na verdade serão eles. Que tanto procuramos nós e que tanto queremos, que o básico não nos satisfaz?
E continuo a minha corrida por entre caminhos íngremes das montanhas perto de Dili.
Finalmente mudei do hotel! Estou numa pequena casa, num aparthotel, fechado sobre si mesmo com uma piscina e jacuzzi ao centro. Os malae vivem bem. Mobilei a casa ao meu jeito, com móveis de design indonésio, para que me possa sentir em casa! Tais cobrem os sofás e os meus livros estão colocados num dos móveis que comprei. Sinto-me em paz dentro dela mas sinto grande falta do José, porque me parece estar em casa. Já tenho chá de jasmim para o chá das cinco e biscoitos de manteiga!
A semana foi intensa, a todos os níveis, profissional e pessoal. Bom o profissional é obviamente incontável.
Uma portuguesa que conheço, com quem já almocei e até vegetei numa pura tarde de ócio, entre outras pessoas que também estavam presentes, foi apedrejada a caminho de Baucau. O estado de saúde leva a que seja evacuada para Darwin. Este acontecimento não só nos deixa consternados pelo que aconteceu à rapariga mas também nos alerta para o que nos pode acontecer a cada um de nós. A notícia correu que nem rastilho, a informação é supersónica por estas bandas, fruto dum contacto muito próximo entre todas as pessoas/profissionais. O contacto com o g.o.e. e outras forças policiais e militares, que aqui estão em missão, faz com que estejamos sempre informados sobre os incidentes e alertas aos eventuais. Os acontecimentos de 2006 fizeram mossa na estabilização do país e segurança dos malae que são alvo de pedrada. O senhor Francisco (meu motorista, guia e tradutor) sempre alerta vai-me continuamente alertando para os sítios e horas a que posso e não ir e sair. Continua a dizer-me: -“Timor muito complicado!” –“senhora não pode sair a partir das sete” “- senhora não sai..” ! Hoje, sem o senhor Francisco vou até ao hotel para fazer o meu check out e tomar o meu último pequeno almoço de hotel, passo pelo campo de deslocados logo ao lado e lembrando-me do incidente com a rapariga sinto um desconforto. Não é medo, é desconforto porque sei que não há maneira de prever quando podemos ser alvo de uma pedrada, é o momentâneo momento de lucidez que me diz que não estou segura.
Depois temos os final de tarde por entre as montanhas e o mar, com o céu cor de rosa, a natureza animal de uma riqueza singular e o mar com o seu azul esverdeado que nos mostra onde começa e acaba o coral. Raios de sol batem nas montanhas, iluminado uma determinada encosta, enquanto do outro lado é já escuro.
O tempo não passou por aqui, tudo continua quase intacto, o homem vive na sua mais primitiva natureza e o seu dia é dedicado à sua sobrevivência mais básica. Olho para eles com os meus olhos ocidentais cheios de preconceitos relativos ao bem estar e felicidade. Momentaneamente pergunto-me se sou eu que sou feliz ou se na verdade serão eles. Que tanto procuramos nós e que tanto queremos, que o básico não nos satisfaz?
E continuo a minha corrida por entre caminhos íngremes das montanhas perto de Dili.
Finalmente mudei do hotel! Estou numa pequena casa, num aparthotel, fechado sobre si mesmo com uma piscina e jacuzzi ao centro. Os malae vivem bem. Mobilei a casa ao meu jeito, com móveis de design indonésio, para que me possa sentir em casa! Tais cobrem os sofás e os meus livros estão colocados num dos móveis que comprei. Sinto-me em paz dentro dela mas sinto grande falta do José, porque me parece estar em casa. Já tenho chá de jasmim para o chá das cinco e biscoitos de manteiga!
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