Monday, December 10, 2007

Até eu!

Até eu já faço comentários aos blogs dos malae... e neles vejo que há sentimentos e visões comuns. Maravilhosos cartoons ilustram realidades e sentimentos.

Monday, December 3, 2007

O dote...

Dudi vem-me buscar para fazermos o nosso jogging e vem acompanhado da sua secretária Dona Benvinda. Eu entro no carro e somos apresentadas. Dona Benvinda lança um dos mil sorrisos e um pequeno riso. Dudi fala em tétum, pergunta-me se estou bem e diz a Dona Benvinda que estou a aprender a língua e que rapidamente estarei a falar. Pergunta-lhe sobre o feriado do dia seguinte e se se prevê algum distúrbio. Dona Benvinda responde que não. Deixamos Dona Benvinda na sua casa que é uma tenda num campo de deslocados e seguimos para a nossa corrida. Diz-me então Dudi: “- Tenho que lhe contar algo, disse a Dona Benvinda que tinha dado 10 búfalos a seus pais e que você é muito, muito cara”.
Entre um sorriso e a indignação lá fomos falando sobre o dote. Nos vários distritos de Timor há a tradição do dote. O homem que quer casar com determinada rapariga tem que pagar por ela a seus pais. E por esta troca comercial a rapariga tem que ser trabalhadora sob pena de ser vítima de alguns açoites por parte do marido e sua sogra, afinal a rapariga custou uns búfalos e talvez umas cabras.

um dolar..

Numa conversa de café, a propósito de me ter convertido ao acto de regatear e de em Dili se pedir um dolar por qualquer coisa ou qualquer serviço, alguém me disse:
"- aqui tu és um dolar com pernas!".
E a imagética de um dolar com pernas ficou na memória ao ponto de me lembrar da pessoa sempre que alguém me pede um dolar.

Tuesday, November 27, 2007

toranja em Timor

Pois é verdade, estou eu dentro de um taxi a caminho da minha aula de tétum quando ouço uma música dos Toranja. A marginal está cheia de trânsito, um calor infernal mas a música essa leva-me até casa. E com os olhos do taxista postos em mim, através do espelho retrovisor, perco a vergonha e acompanho o vocalista enquanto olho Ataúro ao longe.

Monday, November 26, 2007

casablanca

Enquanto falava com José e lhe relatava o ambiente do hotel timor, ele com a sua imensa imaginação para a escrita literária me dizia: "isso parece-me o ambiente de um hotel em casablanca durante a segunda guerra mundial, com espiões e tudo...". e de facto, mesmo o aspecto meio decandente do edifício, as ventoinhas sempre girando no teto, as pessoas que entram e saiem, os olhares prescrutadores e as conversas sobre a situação política deixam no ar a ideia... olho em volta e penso nisso, com aquele sorriso que me é típico quando algo de muito engraçado me passa pela cabeça.

Sunday, November 25, 2007

Ode a Dudi...

...em quem eu (sua amiga pimentinha) tenho já respeito intelectual... pela visão livre de preconceito de olhar o outro e o mundo...e não é por fazer parte de uma minoria (uma pessoa que faz parte de uma minoria pode ser tão ou mais preconceituosa)...é por ser quem é...

Eliza

Caminho acompanhada pela minha professora de tétum (chamar-lhe-ei Eliza –personagem do livro de aprendizagem) por entre ruelas e carreiros estreitos ladeados de kolan (valetas fundas por onde correm águas pluviais e outras) que exalam um cheiro nauseabundo. Eliza vai-me mostrar casas, disse-me conhecer casas para arrendar. Eliza que aparenta ser uma muito jovem adolescente, pelo ar e fisionomia pueril, pela expressão amedrontada no rosto e pelo seu sorriso nervoso cada vez que vai contando algum acontecimento, é mãe de uma bebé de 9 meses. Na verdade Eliza tem 23 anos. Eliza tira da sua carteira duas fotografias e mostra-me orgulhosamente a sua filha. Sempre que estou sem o senhor Francisco e tenho aula, Eliza e eu caminhamos juntas para os nossos destinos. O meu é quase sempre o hotel para consultar o meu e-mail e Eliza vai para a Universidade ou para o seu serviço. E nestas caminhadas vamo-nos conhecendo. Ela faz-me a mesma pergunta muitas vezes: “- senhora tem Tauk (medo)?”
“Lae (não)!” respondo. E prossegue a contar os acontecimentos mais sanguinários que ocorreram nos últimos dias. Depois à medida que passamos em casas ou outros locais fala-me das atrocidades ocorridas durante a ocupação indonésia, de 99 e da crise de 2006. E sinto que isto que me conta é um segredo que não sendo meu me impele a não divulgar. Sinto que todos os relatos que tenho ouvido são um segredo. Mas não o deviam ser. Ela relata-me os factos e termina com um riso fino e esganiçado. E só compreendo esse riso por puro nervosismo, porque em tudo que me conta é impossível vislumbrar qualquer centelha de diversão.
99 foi há oito anos atrás! Há pouco mais de oito anos os timorenses foram torturados e assassinados. Estes são os factos, uma crua e triste realidade para este povo e para a Humanidade, porque a Humanidade não pode fechar os olhos ao assassínio da sua espécie.
E não obstante a violência que sofreram, ou até por causa dela (os psicólogos lá palpitarão), eles próprios lançam mão da violência tão gratuitamente que é quase assustador. O apedrejamento, o desmembramento à catanada e a violência doméstica é praxis. Eu falo com a Eliza sobre o assunto e ela lança o seu riso nervoso. Eliza fala-me da sua filha e das suas rotinas. Eliza é franzina, muito franzina, deixando-nos estupefactos com a imagem da gravidez e da maternidade.
Eliza, como o senhor Francisco, grew on me. Com todas as precauções que uma malae deve tomar quanto a confiar.
Não, eu não tenho medo. De facto não tenho. Penso em tudo que ouço, no que vai acontecendo mas não tenho medo de aqui estar. E quando me sinto mais só ligo a um dos dois amigos que fiz.
Daqui a pouco José vem e eu, entre outras coisas, poder-lhe-ei contar tudo o que ouvi e até também indicar-lhe os locais, como me fizeram. Depois virá o Rui, o Rodolfo e a Lígia e poderei dizer-lhes e mostrar-lhes o mesmo.
José levará com ele tudo que ouviu de mim e do senhor Francisco e quem sabe uns presentes de Natal. Afinal o Natal avizinha-se e eu estarei aqui, longe do bulício das compras natalícias de última hora, dos telefonemas e sms que entopem o telemóvel. Já agora o meu número de telemóvel é o timorense, aquele que vocês já têm.